Lado A, lado B: sobre assaltos e trancas de bicicleta

14/02/2014 16:08

 

Todos viram a cena do garoto preso pelo pescoço a um poste, após sofrer agressões. As opiniões foram muitas, entre críticas e apoio. Quase sempre extremas. As pessoas simplificam e polarizam entre “levar pra casa” e “bem feito”. A situação é muito mais complexa, com várias nuances. Confesso que não senti pena, lamento mais a morte de um policial em serviço, por exemplo. Isso não me faz defender os criminosos que cometeram a violência. Lembro do excelente documentário Notícias de uma Guerra Particular. A disputa ganha uma dinâmica própria, de vingança e revanche. Surge uma triste escalada de violência, sem vencedores.

Discordo da ênfase racista destacada por muitos no episódio. Quando vi a foto, fiquei triste diante de um ser humano naquelas condições. Se observando a cena, destacamos de imediato a cor da pele, temos um grande problema. Era um menino inocente? Provavelmente não, mas nada justifica o crime cometido. Não foi um negro escolhido ao acaso pela quantidade de melanina. A contextualização correta é fundamental para entender o problema. Não nego a existência de racismo no Brasil, apenas não vejo como motivação no caso.

Sempre é possível segregar, afinal, somos únicos. Ele tem outra nacionalidade, preferência sexual, pratica religião diferente, tem outra raça... Ele mora em outro estado ou bairro, ele tem menos ou mais dinheiro, torce para outro time de futebol. Valorizando cada vez mais as diferenças, os antagonismos, nunca construiremos uma sociedade. Ao nosso lado podemos ver um semelhante ou um inimigo. E sempre será mais fácil achar diferenças.

Dificuldades acometem, com intensidades muito distintas, a todos na vida. Certamente o protagonista do vergonhoso episódio teve uma vida muito dura. Todos temos direitos e deveres. Certamente o garoto teve muitos direitos negados ao longo dos seus 16 anos. Isso não permite o descumprimento dos deveres nem lhe dá condições especiais. Defendo o livre arbítrio. O indivíduo deve ser responsável pelos seus erros e recompensado pelos méritos. Complexo assim. Significa que a justiça está na simetria de oportunidades e na assimetria de resultados. Não o contrário. Ninguém deve ser condenado de berço. A ação estatal deve contribuir para ampliar as chances, não sortear vencedores.

A vida é injusta. E a constatação deste fato é perturbadora. Aceitá-lo é um passo fundamental, o que não significa resignação. O Homem aceita a gravidade e tenta vencê-la quando necessário. Negá-la em nada contribui. Devemos reconhecer que a vida é desigual e muitas vezes injusta. Viver uma fantasia onde isso não acontece é tão tolo quando desprezar a gravidade. E a desigualdade de resultados pode revelar, sim, justiça.