Comrades: o retorno

19/06/2014 21:16

Era madrugada em Durban. Frio, não fazia. Estávamos num ano quente para os registros usuais. De novo. Um casaco de moleton resolvia o problema. O ônibus fez o percurso de ida parecer fácil. Embarque e lá pelas 4:30 já estou na fila do banheiro químico. Lenta... A maioria guarda a velocidade para a prova e tenta eliminar ali o peso extra. Um cheiro péssimo que continuou na forma de gases pelos primeiros quilômetros. Os intestinos acordavam depois dos respectivos donos... O nosso grupo se dispersa aos poucos e depois do guarda volumes acontece o desencontro final. Somos três back to back, dois estreantes e um mais experiente. Sozinho, me aperto para entrar na baia de largada.

O ritual começa com o emocionante hino da África do Sul. Em poucos versos, são 5 das tantas línguas oficiais. Em seguida, os acordes de shosholoza chegam pelos ouvidos e eletrificam o espirito. Você está pronto para voar numa corrida de 100 metros, mas o desafio é 890 vezes isso. Maldita matemática...

Um casaco leve, do tipo corta vento, me acompanhou nas primeiras duas horas. Não era indispensável, mas a estratégia foi acertada. O ritmo lento dificultava o aquecimento do corpo e o vento era gelado. As placas invertidas – mostrando a quilometragem a correr – não me inibem ou impressionam. Na verdade, estimulam ao final. Veremos... As potenciais surpresas de uma corrida longa aumentam a tensão. A ansiedade se transforma em seriedade absoluta. Não tenho a mesma alegria do ano anterior. Largamos lentamente. Escuro, ruas apertadas, buracos, obstáculos diversos pela pista e um pouco de miopia. Sigo com muito cuidado. Os vários dias sem exercícios deixam saudade nas pernas. Elas suplicam por movimento, se agitam perto das subidas. O sentimento é de literal aperto. Muita gente em pouco espaço. A caminhada não é opcional.

Malditas bactérias, em forma de uma então desconhecida erisipela, quase comprometem o retorno. Estou ansioso. Usando a tradicional metáfora, a parte vazia do copo lembra que eu tenho um linfedema no pé direito. A sua condição normal agora é levemente inchado, se comparado com o esquerdo. A parte cheia do copo pisa firme e acelera, eu sou capaz de correr 89 km! Bom, a minha caneca não estava completa, mas sede eu não passaria!

“Ei! Estou fazendo algo fantástico hoje. Não tenho o direito de fazer cara feia.” Respeitando a prova e os meus limites, não havia motivo para preocupação. Eu vivia mais uma realização pessoal em forma de corrida. Concluinte ou não, estou de volta. Uma vitória pode deixar marcas, sequelas, mas ainda é uma vitória. Todos os treinos foram rigorosamente realizados. É hora de exorcizar esse fantasma! Afinal, o pé reclama mais do roteiro RJ-SP-Joanesburgo-Durban de avião que de qualquer corrida.

Passando pela distância da meia maratona, já é possível correr com mais liberdade. Ou, simplesmente correr. Acelero e faço os 30 km seguintes mais rápido do que seria recomendado, depois de um início arrastado, muito lento. Na chamada milha verde – um longo trecho arborizado e ainda mais animado - uma trilha sonora me lembra outra e a emoção se espalha pelo corpo. One Love! One Heart! Let's get together and feel all right. Recupero o bom humor e sigo adiante.

Naquelas redondezas, alguns espectadores informam: “ganhamos a Comrades!” Comemoração generalizada entre os corredores locais. “O cara já chegou e para mim acho que ainda faltam mais de 30 km...” Eu estava decidido a arriscar um final sub 9 h. A prova oferece medalhes diferentes e aquela seria uma marca expressiva. Era uma ousadia calculada. Eu estava bem treinado e o tempo era compatível com a preparação. A distância descendo é 2 km maior, mas as montanhas agora empurravam à favor. O clima, se não era o esperado frio, impedia maiores queixas. E correr o down run 37 minutos mais rápido que o up run é perfeitamente normal. Precisava acelerar ainda mais!

Aos poucos, as ladeiras começam a se manifestar. Primeiro no quadril, depois nas costas. A mesma força da gravidade, que poupa seu esforço cardiovascular, joga ossos, tendões e músculos contra o solo. Velocidade e impacto são diretamente relacionados. Incremente a primeira e vai aumentar o segundo. O corpo discorda da minha meta e aparentemente não permite negociação.

Com alguma dificuldade, passo um brasileiro que me pergunta se vi seus amigos com o mesmo uniforme. Respondo negativamente. Pouco depois, eles me passam. Eu caminho lentamente e recebo um fraternal convite: “vamos!” Formávamos um pequeno pelotão brasileiro (ou ônibus, no vocabulário local). O André alcançava o seu green number. Quem completa 10 edições ganha uma condição especial de reconhecimento e tem o seu número imortalizado. Compatriotas que nem conheço me recebem como velho amigo.

 Em 2013, no Kilimanjaro pós Comrades, aprendi a expressão pole pole. Significa devagar. Foi um bom conselho naquela montanha entre o Quênia e a Tanzânia, era bom conselho agora, naquelas montanhas entre Pietermaritzburg e Durban. Quadril, costas e pescoço reclamam mais. O resto do corpo também. Chamei a subida de 2013 de “o mais longo dos dias.” Foi para o momento, previsão equivocada incluindo o retorno. O objetivo era chegar em boas condições, feliz. Tempo eu tinha de sobra. Poupo as pernas e me despeço dos brasileiros, novos camaradas de corrida. Aquelas montanhas tradicionalmente punem os ambiciosos. Ganhei recompensa mais valiosa que uma medalha com o nome de um sujeito que nem conheço... A Comrades é sobre camaradagem, não sobre medalhas ou resultados. Fica a lição!

Eu estava na curiosa situação de correr nas subidas e caminhar nas descidas. Nos treinos, subo rápido e desço lento. Se quero fazer alguma crítica à preparação, faltaram treinos morro abaixo em velocidade de prova. Muitos, desavisados, chamam os 15 km da nossa São Silvestre de maratona. Agora, depois de 74 km, aquela distância era um desafio compatível com a mais tradicional distância. Associo os trechos faltantes a roteiros conhecidos nos treinos (falta uma lagoa Rodrigo de Freitas, um Aterro...) e sigo. Com a cabeça transbordando pensamentos, me surpreendo com a barreira de 10 km.

Confesso, 2013 foi alegria pura, diversão. O retorno teve seus momentos “meu quadril tá doendo, quero chegar!” Ou “ai minhas costas, quando acaba essa descida?” A proximidade do estádio da linha final é magnética. Uma força diferente atua sobre as minhas pernas. Acelero correndo leve. “Ah, como é bom um trecho plano!” O riso toma conta do corpo, antecipando a chegada. Era a conclusão de um desafio iniciado em 2012, com a motivação para a empreitada. Mais de mil quilômetros treinados somando tudo, 176 km oficiais em duas etapas e três medalhas: a ida, a volta e a de ida e volta!

Comrades: subi e desci, fui e voltei. Uma emoção que não pode ser compreendida sem as pernas, apenas com olhos e ouvidos. Entre um cochilo e outro, no avião, escuto o Comandante parabenizar os participantes, concluintes ou não. A medalha é a lembrança concreta. Corpo, coração e mente guardam muitas outras. Ah, terminei 3 minutos mais lento que em 2013, quarenta minutos depois das 9 horas.