A vida pós-Comrades...

12/07/2013 11:44

As pessoas adoram pensar no passo seguinte. E agora não estou falando de corrida... O sujeito sai algumas vezes com uma menina e surgem as primeiras perguntas sobre eventual namoro. Começa a namorar e logo alguém indaga sobre casamento. Falando sério ou de brincadeira, não importa... Uns até incluem o noivado como etapa intermediária. Casado, tem que responder sobre filhos. Com o recém-nascido nos braços, é questionado sobre o irmãozinho... Não há limites! É um roteiro previsível... Somos eternos insatisfeitos, saudosos do passado e mais interessados no futuro que no presente.

No mundo das corridas é semelhante. Debutei nas provas com a meia maratona (Rio, 2008). No retorno oficial, passei por distâncias menores e ataquei a maratona (Porto Alegre, 2010). A famosa distância seria um limite bastante respeitável. Talvez o equivalente a um pai de família com 2 filhos, de preferência um casal. Ninguém é chato o suficiente para perturbar além disso, especialmente se ele conseguiu produzir um menino e uma menina. Culpa minha, me arrisquei além dos 42,195 km.  Primeiro os 56 km da Two Oceans (2012), agora a Comrades. Com muita ironia, o que antes era valorizado aos olhos alheios, virou lugar comum. Reproduzo uma coletânea de diálogos:

 

-         Corri a maratona do Rio no último domingo...

-         Ah, maratona deve ser moleza agora...

-         Claro que não! Maratona é maratona, tem que respeitar... E fez muito calor!

-         Fez calor também na África do Sul, você contou. Ao menos melhorou o seu tempo?

 

*************

 

-         Qual é a próxima? E aí, quando vai encarar os 100 km?

-         Ah?! Tá maluco?

-         Não, o maluco aqui é você que gosta de correr tanto... Quem faz 87 faz 100 km...

Odeio ficar sem argumentos! Completar a Comrades prejudicou a minha defesa quando o assunto é sanidade mental... Como agravante, falam da minha foto na chegada daquela prova. “Nunca vi você rindo daquele jeito!” foi o comentário padrão, especialmente de quem me conhece há mais de 10 anos. Talvez...

Quem sabe os detalhes da prova vai direto ao ponto: “back to back ano que vem, né?!” Explico: para efeitos locais, completar a prova significa correr dois anos seguidos e receber a terceira medalha, back to back (adaptando, seria “ida e volta”).

Um raciocínio pretensamente lógico e logicamente equivocado seria “ah, agora a descida vai ser moleza... E certamente com temperaturas mais amenas...” Encarei um ano de subidas em condições duríssimas, fato. Eu diria que 2014 poderá ser menos difícil. Destaco uma máxima do mundo das corridas sobre as ladeiras: a subida cansa, a descida machuca. Descendo o morro, o esforço cardiovascular certamente é menor, a gravidade ajuda, mas o impacto no corpo é muito maior.

De imediato, quero reduzir um pouco as distâncias e ganhar velocidade. Planejo outra maratona em setembro e a idéia é força máxima. Depois, provas mais curtas. Sem esquecer um ou dois longos mensais. Além de ser o treino predileto, quero manter a resistência. Quem sabe, melhorar as marcas pessoais...

Um leitor mais impaciente pode reclamar agora: “enrolou e não disse nada. Afinal, vai fazer a Comrades em 2014?” Respondo: sem dúvida é uma grande oportunidade! São boas as chances de uma viagem rápida, agora sem outras aventuras. Ainda que eu tenha vontade de conhecer a vizinha Botsuana e Zâmbia...

É sintomático: poucos correm apenas uma edição da Comrades. Sobram exemplos. Sem falar das lendas, como o cidadão que completou  a 40ª em 2013. É uma prova instigante, atraente. Desafiadora. Parafraseando um ex-governador da Califórnia, “I´ll be back” (eu voltarei!), apenas não sei se em 2014.

 

A conferir!