A mentira tem perna curta, mas pode pedalar rápido!

19/01/2013 15:04

O doping, agora confesso, de Lance Armstrong não pode ser considerado uma surpresa. Campeão em um esporte marcado pelo uso de anabolizantes, ele era o suspeito de sempre. Acusado por muitos e inocentado nos exames clínicos. A fumaça é um forte indício de fogo, não uma prova definitiva. Para uma condenação, seria indispensável mostrar o foco do incêndio. Ao abdicar da defesa, o réu perdeu sua inocência.

Nunca acompanhei o ciclismo. Meu contato com o esporte aconteceu através da biografia do americano. Uma epopeia instigante, que beira o realismo fantástico. Expressão usada pelo protagonista, viveu um conto de fadas. Porém sua história não terminou em “felizes para sempre”. Sua bicicleta virou abóbora, o mocinho virou vilão e quebrou-se o encanto.

As aparências enganam. O ciclismo está entre os esportes mais coletivos. Um atacante pode ser muito mais decisivo individualmente que Lance Armstrong, sozinho, no seu dia mais inspirado. Não ter uma boa relação com seus companheiros de equipe de duas rodas não é recomendável... Usando um eufemismo, podemos dizer que Armstrong tem personalidade forte. Arrogante, prepotente, fez mais inimigos que aliados. Os depoimentos críticos e reveladores dos colegas foram o início do fim.

A luta contra o câncer moldou seu comportamento esportivo. Em suas palavras:

- Eu pensei: "vou fazer qualquer coisa para sobreviver". E isso é bom. Mas tomei a mesma atitude no ciclismo. E isso é mau!

Lance não conheceu limites. Tudo em sua vida foi muito intenso, vivido no superlativo. Venceu batalhas duríssimas: livrou-se de um câncer em estágio muito avançado; venceu 7 vezes uma das provas de resistência mais difíceis e competitivas já criadas. Olhou a morte como quem sobe uma ladeira dos Alpes em marcha pesada, acelerando e abrindo distância. Perdeu amigos e fãs. Perdeu títulos e dinheiro. Finalmente, conheceu a derrota. Quanto maior a altura, maior o tombo. E a queda foi feia, em alta velocidade. Perdeu o respeito.

O homem é sempre, em alguma medida, produto do meio. E, infelizmente, o ciclismo tem uma imagem ruim no quesito jogo limpo. Lance disputou e foi mais rápido que adversários – muitos deles igualmente dopados. Destaca-se: a generalização dos meios ilegais de prática esportiva não ameniza as escolhas erradas. Que a punição seja exemplar! O sujeito é extremamente inteligente e tem bons advogados. Sua auto-delação certamente será premiada. É preciso entender a motivação para a confissão. Olho vivo!

Gostamos de mitos e dividimos as pessoas entre heróis e vilões, sem espaço para simples mortais. E Lance encaixa-se com perfeição em ambos os papéis. Sobrevivente, rápido, vencedor. Arrogante, trapaceiro, mentiroso. Um herói, uma fraude! Mito! Minto... Ele não é o criminoso perfeito. É um ser humano como outros. O que faz dele diferente é sua vocação para extremos e a capacidade de pedalar rápido uma bicicleta. Com ou sem doping. A mentira pode pedalar rápido, pode esconder-se num pelotão como um bom ciclista, mas, seguindo o jargão do esporte, é uma corrida contra o relógio. Cedo ou tarde, a verdade alcança.

 

Em tempo: não consta qualquer tipo de irregularidade na conduta da Fundação Livestrong, criada para ajudar pessoas com câncer. Trata-se de uma relação de confiança. E a do seu fundador e ex-presidente foi destruída por completo. Pessoalmente, acredito nas boas intenções da entidade, mas não sei o que fazer com a minha camiseta.